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domingo, 2 de outubro de 2011

Sobre vietnamitas, vietcongs e americanos


A Guerra do Vietna (por aqui chamada "American War") é so o episodio final de um milenio de luta armada do País contra o dominio chines, o imperio Khmer e a colonia francesa.  Se, por um lado, a Historia nao previa um Vietna dividido entre Norte e Sul por ideais comunistas e devaneios ditatoriais capitalistas, o resto da Humanidade se choca ao assistir ao vivo e a cores o limite da maldade humana com o ingresso de um terceiro elemento nessa guerra, que de fria nao teve nada, chamado America. 

Ao Sul, o lider catolico Ngo Diem se ve ameacado a perder as eleicoes para o Norte Comunista e com um golpe militar comeca a ofensiva contra o inimigo. Ao Norte, o movimento comunista ganha forca sob lideranca do "pai do povo", Ho Chi Min, e aqueles que viriam a ser chamados de vietcongs. E os Estados Unidos, quem convidou? Bem... Em epoca de Guerra Fria e sob a afronta de uma vitoria comunista puxar outros países com ideais sovieticos, os Estados Unidos passam a apoiar os desvarios do ditador Ngo Diem e a munir seu exercito com poder de fogo, dinheiro e, finalmente, com a participacao ativa do exercito americano. E assim, Ngo Diem abre as portas do Vietna àquele que derrubaria ainda mais sangue num País com passado ja sangrento. Hello, Uncle Sam.

Dentre uma serie de fatos historicos que daria um livro, as decadas seguintes marcam uma sequencia de ataques mutuos entre Norte e Sul e participacao cada vez mais ativa dos Estados Unidos na Guerra (em dado momento, o ditador do comeco da historia é derrubado - vulgo morto - pelos Estados Unidos e pelo seu proprio exercito de civis/militares insatisfeitos). Os vietcongs impressionam pela engenharia de guerra, recursos escassos e envolvimento/disfarce civil (soldado vira campones, campones vira soldado. Sem distincao de uniforme, status, idade ou sexo, uma nacao inteira - civis e militares - vai a guerra e quando necessario, se infitram no territorio inimigo sem serem notados). E assim esta armada a guerra.

Contrariando qualquer codigo de guerra que poderia existir, os Estados Unidos agravam as consequencias de uma guerra convencional com a utilizacao do nada convencional agente laranja. 83 milhoes de litros de herbicidas derramados sobre a mata vietnamita com objetivo de desfolhar a selva tornando o inimigo visivel para atilharia aerea, atingir o plantio fonte de alimento dos vietcongs e ora... eliminar de vez o inimigo, fosse ele civil ou militar. Ecocidio e carneficina sao palavras brandas para definir tamanha destruicao. Entre vencedores e vencidos, aproximadamente 4 milhoes de vietnamitas de ambos lados foram mortos (dos quais, estima-se, 2 milhoes eram civis), solamente 50 mil soldados americanos e quase 5 milhoes de cidadaos expostos ao agente laranja com consequencias que se estendem ate a terceira geracao dos atingidos.

Mais do que a visita ao Cu Chi Tunnels e o entendimento de como um exercito pequeno e sem poder bélico lutou de igual para igual contra o gigante exercito americano... Mais do que a parada desconcertante no War Remants Museum e as imagens que ilustram ate onde chega a loucura e atrocidade humana em cenario de guerra... O simples pisar no País é dessas experiencias que, de cara, muda sua historia. E mudou a minha.

O Vietna nao me foi brando. De largada, tive problemas na fronteira Laos-Vietna e periguei ter que voltar todo o caminho percorrido para regularizar meu visto (entendam por caminho percorrido as 10hs viajadas ao som de karaoke tailandes num onibus com ar condicionado quebrado e bateria de ipod arriada). Apos 4 horas na fronteira com oficiais vietnamitas com cara de mau, consegui entrar no País. E eis que vem Ho Chi Min e suas 5 milhoes de motocicleta, leva minha camera e me deixa um roxo do tamanho de um palmo aberto no pulso. Sim, questoes um tanto pequenas perto do passado sofrido e realidade dura do País. Mas suficientemente pessoais a ponto de lembrar que a violencia no País tem causa e consequencia.

Sem otimismo dessa vez. Saio do País mais forte, mais dura, mais preparada. Na falta da esperanca de sempre, fecho com John Lennon e suas palavras de paz com aquela que viraria hino anti-guerra Vietna.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Camboja: sobre justica e minas terrestres

Em sequencia ao ultimo post, mais detalhes sobre o passado (presente) sangrento de Camboja.


Sobre justica: Lembra de uma tal de ONU, Tribunal Internacional da Justica, Direitos Humanos, patati-patata que ja vigorava com forca total em meados de 70? Chuta quem representou a nacao perante ONU ate 1991? O proprio - Pol Pot. Com isso, a Humanidade so se deu conta do ocorrido em 1997, com uma carta do primeiro-ministro de Camboja pedindo auxilio e intervencao da ONU no julgamento dos lideres do Khmer Rouge. Do alto dos seus 80 anos, os 4 lideres sobreviventes aguardam, velhos e doentes, seu julgamento final. Pol Pot livrou-se da Justica em Terra - morreu em 1998 vitima de um ataque cardiaco. Foi queimado numa pilha de pneus velhos na mesma zona rural onde escravizou, torturou, assassinou milhares de cambojanos. 

Sobre minas terrestres: Nao bastasse o rastro de sangue deixado pelos anos Khmer Rouge, centenas de cambojanos seguem morrendo ano apos vitimas de minas terrrestres ainda ativas. Camboja eh a primeira no ranking de amputados/mortos por minas terrestres do mundo. Estima-se que 600 Km de territorio permaneca contaminado e que algo entre 6 a 10 milhoes de minas seguem ativas (isso numa populacao de 14 milhoes de pessoas... Facam a conta.). Claro que os soldados que implantaram as bombas nao tem registros passiveis de rastreio. Com isso, o pais tem o grande (e caro) desafio de eliminar as minas terrestres em sua totalidade ate 2019, conforme tratado com a ONU. Sabem as 3 criancas do post anterior que fizeram meu dia feliz? O pai perdeu as 2 pernas vitima de uma mina ativa nas redondezas de Phenon Phen e comecou um lindo projeto de arte aos desabilitados fisicamente. Com o lema de "We don't beg, we work", eles tentam reescrever essa historia  triste e sangrenta com o colorido da arte. Lindo de se ver.

domingo, 14 de agosto de 2011

O passado sangrento e recente de Camboja

35 anos se passaram e a marca de um dos genocidios mais crueis da Historia continua estampada nas ruas de Camboja: Criancas e adultos com membros amputados, cadeiras de rodas e muletas em excesso, o risco eminente de minas ativas nos campos de arroz e sitios arqueologicos, pobreza generalizada, demasiado pedido de esmola, historias tristes por tras de um sorriso timido e sofrido. 

Abril de 1975. Sob lideranca do ditador Pol Pot, o partido de esquerda Khmer Rouge toma o poder. Com pretextos marxista/maoista para os mais hediondos atos, o novo governo institui o comunismo, a destruicao em massa, o exterminio de uma nacao. A populacao da capital Phenon Phen foi arrastada ao campo, na tentativa "bem-sucedida" de uma sociedade (escrava) agraria voltada a plantacao de arroz. Fim do papel-moeda, do mercado livre, das praticas religiosas, das influencias estrangeiras. Escolas, hospitais, bancos, monumentos budistas destruidos. Minas instaladas ao longo do territorio cambojano. E finalmente, exterminio das classes opositoras. Leia-se minoritarias,  primordialmente classe intelectual (como impor ideiais aos que detem conhecimento?). Entre professores, diplomatas, monges, ministros, artistas, estrangeiros ou simples moradores da cidade grande, a matanca chegou a marca de 3 milhoes, algo em torno de 30% da populacao cambojana. Em termos relativos, nenhum outro ditador sanguinario conseguiu tal feito. Nem Hitler, nem Stalin, Pol Pot foi "o cara". 

O mergulho ao passado sangrento de Camboja comeca pelo Museu do Genocidio Tuol Sleng. O que era inicialmente uma escola, virou sede de interrogatorio, prisao e exterminio dos "opositores". A entrada ao complexo - na epoca chamado Security Office 21 (S-21) - ainda exibe a cartilha de seguranca em vigor no periodo sangrento. Frases como "While getting lashes of electrification you must not cry at all" nos lembram a razao de estarmos ali. É so o comeco. A cada sala de aula que se entra, fotografias de homens, mulheres, idosos, criancas, bebes que por ali passaram. Celas e solitarias adaptadas. Tela de arame enfarpado nos andares superiores para evitar o desesperado suicidio.  Instrumentos de tortura, descricao dos metodos de tortura, fotos de tortura.  E quem precisa de estimulos visuais quando cenas de um passado recente e brutal insistem em pipocar na mente e lhe embrulhar o estomago? O ar fica denso e a tristeza é palpavel. 




A 15 Km dali, um novo cenario de horror: o campo de concentracao Choeung Ek, para onde eram encaminhados os prisioneiros da S-21 rumo a morte. De joelhos, maos amarradas, olhos tapados, recebiam um golpe quase fatal na nuca, muitas vezes seguido de decaptacao com um facao. Os oficiais sequer aguardavam o padecer final e jogavam centenas de corpos, um sobre o outro, em grandes valas cavadas no chao. As escavacoes, analises dos ossos e reconstituicao dos fatos tece um cenario ainda mais chocante: Marcas de espada e objetos pontiagudos nos cranios. Corpos de mulheres decaptadas segurando seus bebes. Sepulturas coberta de corpos de criancas. Bebes assassinados por arremesso nas arvores. 

Nem a belissima paisagem verde cambojana apaga a lembranca de quanto sangue foi derramado sobre (e sob) aquele solo. Mais do que uma homenagem ao que sofreram e padeceram sob o poder Khmer Rouge, a pilha de ossos na torre tem o importante papel de conscientizar o povo cambojano do ocorrido. Criancas, jovens e residentes do campo sao alvo de um projeto cujo o objetivo é evitar que novos golpes tragam de volta o sabor amargo de um passado recente.


Ainda as margens dessa historia sangrenta e seus resquicios (familias desfeitas, pobreza generalizada, centenas de mortes ao ano por minas ativas), o povo cambojano segue com otimismo, sorriso no rosto, estado de espirito intacto. Uma licao de vida. Fecho meu dia com uma feliz ironia: Sob as mesmas arvores contra as quais eram lancados bebes, hoje brincam 3 criancas com um sorriso no rosto capaz de apagar qualquer tristeza do meu dia. Impossivel nao se emocionar.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Dossiê Tropa de Elite 2: O inimigo agora é outro

 
Em tempos de preguiça política e definição eleitoral, surge Tropa de Elite 2: O inimigo agora é outro de tapa na cara, murro no estômago, nó na garganta. Perdoem-me pelo anti-climax, mas saí do cinema após alguns dias do primeiro turno de uma eleição marcada por troca de acusações demais e discurso político de menos, engasgada.
 
Os sentimentos despertados pelo brilhante Tropa de Elite  permanecem: a realidade corrupta por parte da Polícia Militar ainda choca, a bomba relógio das facções criminosas espalhadas nas favelas e penitenciárias de alta segurança do Rio de Janeiro ainda preocupa, a brutalidade com que o ser humano é tratado por criminosos e agentes do governo (ainda que justificável...) ainda dói. O brilhantismo do ator Wagner Moura na pele de um Capitão Nascimento mais melancólico permanece. O sentimento de revolta e senso de justiça num sistema marcado pela corrupção e impunidade é aguçado a medida que se desenrola a luta do herói Capitão Nascimento e anti-herói  Diogo Fraga contra um novo modelo de Máfia que extorque, chantageia, ameaça e mata, instalado pelas Milícias e por políticos de colarinho branco. O inimigo agora é outro extrapola o combate à violência e ao tráfico nas favelas e toma esfera e provocação moral.
 
Saio do cinema incomodada, provocada. E curiosa. Curiosa se o governo teve peito para investir recursos num filme que escancara a verdade obscura de um sistema sujo nomeado por votos e sustentado por um governo contaminado. Curiosa por ligar atos e fatos da triste realidade do Rio de Janeiro à trama montada no filme. Curiosa por traçar um paralelo entre os personagens corrompidos ilustrados na ficção com as personalidades ilustres ou não tão ilustres que vemos nos jornais envolvidos em escândalos diários. E minha maior curiosidade foi saber se existe na vida real uma personalidade que se equipare ao personagem Deputado Diogo Fraga, num papel de “Intelectualzinho de esquerda”, “Che Guevara” “ativista dos direitos humanos” e suposto “defensor de bandidos”. E nada como um fim de semana com cariocas sob o gosto amargo da realidade do Rio de Janeiro, pra conhecer um pouco mais de fatos e teorias (algumas com ares de teoria da conspiração) por trás das telas.

Entre discussões acaloradas sobre as referências da vida real que deram origem aos personagens, tecem teorias e fazem um exercício interessante de “dar nome aos bois”. As opiniões se dividem sobre qual governo foi pano de fundo para o filme: A abertura das Milícias se associa ao governo Garotinho/Rosinha e todos os escândalos que trouxe consigo ou tem vestígios do atual governo de Sérgio Cabral e sua polêmica participação em festas de favela no melhor estilo miliciano conforme vemos no filme? Os personagens de Guaracy, secretário da segurança e do PM corrupto Rocha referenciam uma série de nomes ligados aos esquemas e escândalos das Milícias (ex-chefe da Polícia Civil Àlvaro Lins, recentemente preso acusado por lavagem de dinheiro, corrupção e participação de quadrilha; Marcelo Itagiba eleito deputado federal sob suspeita do apoio dos milicianos e envolvido em escândalos; Os deputados Jerominho, Nadinho e outros "inhos" que instauraram um poder de base miliciana na Favela Rio das Pedras... E outras várias personalidades acusadas dos mais hediondos crimes políticos e civis. Claro que vários desses ainda soltos). O poder da mídia na urna do apresentador sensacionalista Wagner Montes, recém eleito o deputado mais votado do Rio de Janeiro, ilustrado no filme na pele do apresentador e eleito deputado Fortunato (em tempo: Padilha descarta indícios de que ele tenha se envolvido nos escândalos das milícias como seu personagem no filme). Pelo paralelo, um tanto quanto real, que o filme traça com episódios de um passado não muito distante, como a rebelião e conflito de diferentes facções criminosas de Bangu 1 (na época liderado pelo Fernandinho Beira-Mar, e no filme na pele do ator Seu Jorge) ou com episódios envolvendo uma imprensa sensacionalista, corrompida a concessões públicas e ancorada em políticas partidárias como vimos no filme.

 “Apesar de possíveis coincidências com a realidade, esse filme é uma obra de ficção”, diz em branco no preto os letreiros da 1ª cena do filme. O diretor, porém, não esconde que TV Senado, TV Câmara e uma seqüência de troca de acusações e aberturas de CPIs foram sua principal fonte de material criativo. A trama tece uma mistura total e parcial de fatos, personalidades e escândalos da vida real. Entre verdades e meias verdades, a única inspiração real e declarada do diretor fica por conta do “Intelectualzinho de esquerda”, “Che Guevara” “ativista dos direitos humanos” e suposto “defensor de bandidos”, no papel do antagonista do filme, deputado Diogo Fraga. O personagem foi inspirado no deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), reeleito como segundo mais votado do estado do Rio. Sob ameaça e planos de atentado dos milicianos interceptados a tempo, teve proteção da polícia civil, andou de carro blindado e seguranças durante sua corrida eleitoral e considerou deixar o país caso não fosse reeleito. Professor de História, ativista declarado pelos Direitos Humanos, promoveu discussões sobre a situação carcerária do Brasil e intermediou rebeliões e conflitos nas penitenciárias de alta segurança do Rio de Janeiro ao lado do BOPE. Como deputado, instaurou a CPI das Milícias que prendeu centenas de milicianos,  promove debates importantes sobre segurança pública no Rio de Janeiro, tem um olhar crítico sobre o tão aclamado projeto de Pacificação instaurado pelo governo Sérgio Cabral, através das UPPs e estende a discussão para violência urbana e falhas no “sistema” do país e propõe e luta por mudanças estruturais na segurança pública. Reconhecem as semelhanças? A excelente performance do deputado  nas eleições refletem uma sociedade insatisfeita, insegura e incomodada com um modelo de corrupção, impunidade e formação de poderes indevidos. Enquanto São Paulo protestava votando no Tiririca, a população carioca deu seu voto a favor de uma voz ativa num governo corrompido. 
 
Esclarecidas as coincidências entre realidade e ficção e como captadora de recursos de agência de fomento (esse é meu trabalho, por sinal), curiosidade 2: Teria o governo financiado um filme que ataca o “sistema” na mais alta esfera política? A resposta é não, o filme não recebeu um centavo dos incentivos audiovisuais do país. A ironia fica por conta do próximo filme de José Padilha, “Nunca antes na História desse país”, com trama central no Mensalão: O filme foi contemplado pelo BNDES com 1 milhão de reais para a produção do filme. Agora é aguardar as reações e tentativas de intervenção de deputados, governadores e políticos com as mãos sujas sobre o novo filme. 
 
Num país onde a moral tem nuances entre o preto e o branco, que o filme nos leve a refletir e nos posicionarmos quanto a temas sérios e complexos como política, Direitos Humanos, segurança pública, problemas sociais, e um poder que corrompe e se reinventa. E num instinto natural de revolta e de busca por culpados numa realidade que assusta, o filme nos aponta o dedo e o incômodo antes causado com o inocente baseado acendido alimentando o tráfico nas favelas do 1º filme, agora dá lugar a mercadorias impalpáveis: o voto, o posicionamento partidário, a decisão pelo azulzinho ou vermelhinho. E em tempos de definição eleitoral e posicionamento partidário, o anti-climax e desconforto é geral até para os mais corretos dos cidadãos... O sistema é foda!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Desabafo: preguiça política com final feliz (?)

Apesar de uma queda por temas políticos, econômicos e sociais, confesso que essa disputa eleitoral me causou uma imensa “preguiça política”.

Preguiça de presidenciáveis discutindo um episódio de bolinha de papel em pleno horário político, enquanto pouco se falava sobre propostas de governo que não fossem ferramenta rumo à vitória (a polêmica Bolsa Família foi a principal delas, vide post. E não, não me refiro à força PT no Nordeste. Alguém explica a proposta do Serra de dobrar o Bolsa Família nos últimos minutos do 2º tempo?).

Preguiça do atual presidente esquecer que seu mandato se estende até o dia 31 de dezembro desse ano e que até lá, seu cargo lhe exige gestão ativa e comportamento para tal, ainda numa disputa  política em que pretende eleger sua apadrinhada. 

Preguiça por presenciar atos e declarações que põem em dúvida a absoluta liberdade de imprensa, desrespeitando a história de democracia do país. Não bastasse o atual governo apostar em mecanismos de controle aos veículos de comunicação - “observatório de conteúdos midiáticos” (!) – tivemos o desprazer de presenciar o atual presidente perder a elegância e o bom senso ao acusar a imprensa de golpista e mentirosa. Na outra ponta, o mesmo jornal que se declara “há 461 dias sob censura”, demite a Maria Rita Khel pelo belíssimo artigo “Dois Pesos...” que coloca abaixo a teoria de que os pobres do Nordeste são ignorantes demais e seduzidos pelo “bolsa-esmola” pra tomar uma decisão de voto pela democracia do país. "Prefiro o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras", disse a nova presidenta. Poético, não?! Assim espero que seja no próximo governo.

Preguiça da candidata à presidência eleita ter cedido a discursos prontos e marketeiros e pouco ter mostrado sua cara, postura e estilo de gestão (Confesso que me impressionei com o posicionamento dela nesses últimos 5 dias. Mais serena, assertiva e sem desviar de assuntos polêmicos como vimos na campanha. Espero, de coração, me surpreender positivamente. A CPMF tá aí pra vermos até onde não passa de discurso...). 

Preguiça de resultado de pesquisas eleitorais duvidosos.

Preguiça dos votos de protesto que colocaram o Tiririca no governo com mais de um milhão de votos.

Preguiça da abstenção dos eleitores (e aqui, faço minha mea culpa... Em meio a tanta preguiça e decepção, confesso que considerei dar meu voto à Iemanjá no 1º turno, com um fim de semana de sol na praia. Voltei à razão ou à esperança antes disso...)

Preguiça “político/religiosa”: De um lado, a Igreja liderando um movimento anti-Dilma; no outro, intelectuais e artistas que eu admirava pela coerência, me decepcionaram ao evocar entidades divinas num movimento Pró-Dilma. Lamentável.

E aos meus caros amigos militantes de esquerda... E aos meus admiráveis amigos intelectuais de direita... Me perdoem, mas preguiça da guerra armada que virou twitter, facebook, e minha caixa de email lotada de exageros, ataques e falta de bom senso. Por um lado, foi quase bonito ver um público novo e cheio de energia lutar por suas opiniões, partidos, ideais. Há tempo não via esse engajamento e acredito que os canais de mídia e acesso à informação promoveram esse debate. Por outro lado, vi pouco material sério e argumentos coerentes. Enquanto o que me agrada são discussões conceituais, filosóficas, partidárias e posicionamentos sérios e ponderados, o que mais vi  foi fanatismo insensato dos 2 lados, focado no ataque à oposição, no exato mesmo padrão que se estabeleceu na disputa Dilma x Serra.

Ainda assim, preciso agradecer a enxurrada de emails, posts e tweets. Me muniram de informações (não sei o quanto delas verdadeiras, mas tive acesso a um mundo de informações. E não deixei de ler um email sequer, por mais absurdo e incoerente que julgasse) e conhecimento necessário pra formar uma opinião coerente com minha bagagem de conhecimento, valores e razão. Ainda que tenha me rendido preguiça... Muita preguiça!

Numa eleição que parecia sem final feliz (e dá pra se falar em final feliz?!), alguns fatos, no entanto, retomaram meu engajamento político. Tive algumas alegrias, um fundo de esperança e um tapa na cara. O sucesso absoluto da Marina no 1º turno, em resposta a uma luta de ética política que já nem lembrávamos que existe e a esperança de uma oposição liderada por ela para as eleições 2014. O senador eleito Aloysio ter derrubado o candidato Netinho, nos livrando de um Senado composto exclusivamente por representantes no mínimo lamentáveis e despreparados para o cargo – Marta Suplicy e Netinho. Os 4 milhões de votos do excelente candidato ao Senado, Ricardo Young do PV. A volta da discussão da Ficha Limpa, que parecia abandonada  face a tantos escândalos e outras mesquinharias nessa corrida eleitoral. O protesto a favor da democracia liderado pelo fundador do PT, Hélio Bicudo, trouxe à tona questões que viraram tão naturais no atual governo, que já nem mais reconhecíamos como absurdo (minha parte predileta: “É intolerável assistir ao uso de órgãos do Estado como extensão de um partido político, máquina de violação de sigilos e de agressão a direitos individuais”. Lindo!).

E de tapa na cara... Bem, fica por conta do elo perdido entre esquerda e direita, da dúvida até onde vigora Direitos Humanos num sistema fajuto e imoral alimentado por votos, de um modelo de impunidade e corrupção ao qual tornamo-nos acostumados. Tudo isso perfeitamente ilustrado na obra prima Tropa de Elite 2. Tapa na cara, nos faz pensar... Me fez pensar. Com coragem e coerência. E por isso, deixo de lado a preguiça política e o colorido do meu blog de experiências de viagens deliciosas pra me posicionar sobre um assunto denso e complexo, que me tira da zona de conforto. 

Aguardem dossiê Tropa de Elite. 

domingo, 24 de outubro de 2010

Pra não dizer que não falei das flores, política e Bolsa Família

Divido nesse blog as coisas que mais me encantam nessa vida. E política claramente não é uma delas. Porém, há alguns dias de terminar essa corrida presidencial que tomou ares de disputa de classes, regionalismo e intelecto, minha paixão por dossiê viagens foi tomada por um outro tema tão encantador quanto: desenvolvimento social. E impossível falar de desenvolvimento social do país sem falar de Bolsa Família e política social. Após algumas semanas de leituras aprofundadas e discussões calorosas, peço licença pra dividir no meu blog de experiências deliciosas um assunto com gosto amargo. Segue minha humilde opinião em forma de desabafo sobre meu posicionamento favorável ao Bolsa Família e os desafios sociais do próximo governo.
 
Começo esclarecendo que meu parecer favorável ao assistencialismo, assim chamado, às classes D e E no Brasil tem um "quê" de alívio burguês. É algo do  tipo “ok que o Bolsa Família banque um monte de prefeito de cidadezinhas no Nordeste que cadastrou sua família inteira no programa, enquanto o programa não chega no senhorzinho lá no fim da Paraíba... ok que o modelo seja sem critérios honestos e fiscalização devida... ok que o programa é forte ferramenta política e nova máquina de votos... ok que tem muita coisa errada no governo, no sistema, no modelo econômico, tributário, até empresarial do país. Mas ainda bem que meu dinheiro não vai pros cofres públicos muitas vezes mal gerido ou cofres privados de políticos corruptos ...

Infelizmente, não acredito no apelo inicial do programa que é colocar mais crianças na escola. Sou descrente demais com o ensino público atual pra acreditar que uma economia sustentável seja construída a partir de mais crianças matriculadas, sem que haja, de fato, mudanças e investimentos substanciais na Educação do país. E os números apurados comprovam isso: apesar do aumento de matrículas, queda no rendimento. Ainda assim, fico mais tranqüila com crianças nas escolas do que fora delas, nas ruas ou trabalhando no campo.

Mas acredito na redistribuição de renda. E portanto acredito no programa Bolsa Família. Conceitualmente redistribuição de renda é isso, certo?: tira de quem tem mais através de impostos (ainda que feito indevidamente, ainda que grande parte desse recolhimento seja mal administrado ou destinado à corrupção do país, ainda que tenha uma reforma tributária chorando pra ser feita...) e dá pra quem tem menos (através de investimentos a fim de proporcionar condições básicas de Saúde, Educação, Segurança necessárias para a sobrevivência e bem estar dos indivíduos; ou através de injeção de recursos direto – assistencialismo, como é chamado de forma pejorativa). É papel do Estado fazer isso. Uma das várias críticas que escuto ao programa é que o Brasil deixou de crescer em função dos vários bilhões investidos no Bolsa Família. Dos mais radicais, que o PIB cresceu aquém do que deveria graças ao assistencialismo (como se as classe s D e E devessem ser ignoradas enquanto o país cresce em ritmo “nunca antes visto na história desse país”). Dos menos radicais, que se o recurso direto fosse revertido em Educação, Saúde e Desenvolvimento, os benefícios seriam de longo prazo e sustentáveis. Aqui destaco 2 pontos: i) Infelizmente, existe uma classe econômica no Brasil que vive em situações tão precárias, que não adianta a economia acelerar, o país crescer a 2 dígitos ao ano, o consumo aumentar... o dinheiro não chega até essa classe, as condições de trabalho não melhoram, a informalidade não permite que tenham acesso a direitos trabalhistas previstos na constituição, o dinheiro não pinga no fim do mês pra comida na mesa ou cachaça no botequim. ii) Associado ao crescimento econômico, o programa é, sim, mecanismo de redução do abismo social e portanto um passo para o crescimento e desenvolvimento do país.

Não vou entrar na discussão política em si: Se foi o governo FHC que criou o embrionário Bolsa Escola, se o governo Lula deu proporção e repercursão ao transformá-lo no gigante Bolsa Família por questões puramente políticas ou se ainda permanece algum resquício de essência por justiça social, se o Bolsa Família tornou-se ferramenta de fidelização de eleitorado, se o atual governo utiliza manobras para alterar as regras do programa há poucos meses da eleição para não perder alguns milhões de candidatos (fim de dezembro de 2009: nova medida permite que as famílias cadastradas no programa e prestes a serem desclassificadas por desatualização cadastral ou por terem ultrapassado o teto de 140 reais de renda per capita, continuem a gozar do benefício até – pasmem! – 31 de outubro de 2010 – reconhecem a data?), se as demagogias usadas pelos presidenciáveis que continuam na corrida nesse 2º turno são absolutamente lamentáveis... Nesse jogo político, todos têm as mãos sujas e são culpados.

Fato é: ainda que o programa tenha surgido por jogada política ou motivos duvidosos, a semente Bolsa Família foi plantada e seja lá quem for eleito vê-se obrigado a, no mínimo, dar continuidade ao Programa em caráter de manutenção (e portanto continuar atingindo mais de 12 milhões de famílias). Ou pro jogo político ficar mais competitivo, expansão do programa (Se eleito, o Serra fala em dobrar o número de famílias beneficiadas... máquina de votos?).

Ainda que ocorram impactos relevantes nos cofres públicos e no crescimento do país, impossível fechar as portas do programa. E ainda bem! De duas, uma: ou o governo eleito cria mecanismos para tirar essas famílias da dependência do recurso direto, como porta de saída do assistencialismo (cursos profissionalizantes e criação de emprego ligados ao programa. À medida que o profissional se qualifica e se emprega, deixa de ter direito ao programa); ou o governo eleito terá de bancar milhões de família por prazo indeterminado. Fato é: Ainda que o programa precise ser aperfeiçoado, os critérios de seleção e controle refinados a fim de alcançar todos, e somente todos, que de fato precisam do auxílio, ainda que exista o grande desafio de desvincular a renda de milhares de famílias das “tetas do governo”... nenhum governo a partir de agora poderá ignorar a realidade das classes D e E do país.

Em tempo: acredito no desenvolvimento de um Brasil com forças regionalizadas. Nesse contexto, acredito no crescimento do Nordeste para a formação de uma nova potência consumidora, empregadora, produtora e formadora de opinião. Crescimento esse baseado no aumento do poder de compra das classes C, D e E até então reprimidas, nos benefícios fiscais regionalizados, no aumento de oferta de crédito justa (O Banco do Nordeste não só atraiu grandes emprendimentos lá em cima, como também incentivou o desenvolvimento local através de linhas de microcrédito sustentáveis: segundo pesquisas da FGV, 60% dos clientes do programa de financiamento Crediamigo - eleito nada mais nada menos pelo BID, referência em microcrédito sustentável - conseguiram sair da linha de pobreza em razão dos benefícios advindos do microcrédito). Chega de um Nordeste baseado em grande escala de mão de obra barata e informal1, potencial fábrica de votos ou como uma África onde a fome não é erradicada por questões geo-políticas e financeiras.

E como a discussão é, no fim das contas, definido por um voto no próximo  Domingo, alguns posicionamentos finais: Não tomo decisões partidárias. Apesar de me ver seduzida por um governo de oposição e pelo que ele deveria provocar, o papel de oposição do PT de outrora perdeu-se face a tantos escândalos. Não gosto do Serra. Tenho medo da Dilma no poder. Voto a favor de uma economia acelerada, crescente, pautada em pilares econômicos estabelecido pelo governo FHC e focada na potência econômica que o Brasil vem a se tornar no médio e longo prazo - "a menina dos olhos do bloco BRIC".  Mas sou a favor de um governo que abra mão de alguns dígitos a mais do crescimento do PIB em razão de questões sociais sérias do curto prazo. O Bolsa Família fez isso, portanto leva meu voto. Conversamos daqui a 4 anos...

E pra não dizer que não falei das flores... Geraldo Vandré:  "Pelos campos há fome em grandes plantações. Pelas ruas marchando indecisos cordões. Ainda fazem da flor seu mais forte refrão. E acreditam nas flores vencendo o canhão..."





1. Um pouco mais sobre informalidade no trabalho: Me incomoda ouvir da classe empresária (ou de nós, “burgueses”) que o Nordeste deixa de ter a atratividade inicial por ter perdido esse grande ativo do Nordeste, graças ao Bolsa Família e à preguiça generalizada nordestina. Ou nem precisamos ir tão longe: Quer ver o preço da informalidade em São Paulo capital? Aqui, vale destacar que não me orgulho, mas participo da informalidade trabalhista.
 
Minha diarista Ana, ganha 60 reais por faxina e tem todos os dias da semana tomados, logo 1.200 reais líquido. Eu e os demais “patrões”, não pagamos os devidos direitos – 13º, INSS, férias. Assumindo um percentual de encargos trabalhistas estimado em 50%, temos 600 reais que deixamos de desembolsar “graças” a informalidade. Agora de volta ao Bolsa Família. A Ana sustenta 2 filhas menores de idade e devidamente matriculadas na escola. Como não tem salário formal, mesmo com a renda per capita da família maior do que a habilitada a receber o benefício, sua família tem direito ao programa. Não fosse a dificuldade cadastral – um dos vários pontos a melhorar do programa - ela receberia no máximo 200 reais. Quem sou, ou qualquer um que alimenta esse trabalho informal, pra criticar que sai dos nossos bolsos os recursos necessários para sustentar o Bolsa Família?

Daí surgem os questionamentos: "Mas quem disse que eles querem a formalidade?". A resposta correta seria "Pois então não contrate, não alimente essa informalidade, que um dia a mesma deixará de existir". Esses dias num café com meu amigo Rafa, ele me deu essa luz. Disse que quando casasse e tivesse sua casa não contrataria faxineira sem carteira registrada. Que para um apartamento pequeno não necessitaria contratar ninguém, aliás. Ele mesmo limparia seu apartamento, pintaria sua parede, instalaria seu móveis, não mais pagaria pra manobristas na rua olharem seu carro, ele mesmo lavaria seu carro todo fim de semana. Eliminando uma classe trabalhadora de mão de obra braçal, barata e informal, o Rafa propõe um modelo semelhantes aos países desenvolvidos, onde essa classe de trabalhadores não existe ou fica a cargo de aspirantes estrangeiros dispostos a tentarem a vida em Euros. Claro que ele ainda não conseguiu abolir todas as formas de trabalho informal à sua volta. Desde essa conversa fiquei provocada com isso e tentado o mesmo. É complicado abrir mão dessa forma de conforto e economia, mas vale pensar no assunto...