quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Barra Grande: mais do que mil palavras

Um pôr do sol de tirar o fôlego ...
... um cenário perfeito ... 
... uma energia que não se explica ... 
 ... emoções que tocam fundo na alma.
A melhor cerveja de 2010 ... 
... tardes vagarosas da vida ...
... e o entardecer ... 
... e o anoitecer.
A caminho da virada ...  
... a virada ...
 ... e 2010 nasce feliz ...

 ... e segue feliz dia adentro ... 
 ... até que vem a chuva ...
 ... e os efeitos deliciosos e destruidores da chuva ... 
  ... pro dia renascer feliz. 
 Surge um tal de dia 2...
... e "are we human?" ... 
 ... e "somewhere under two rainbows" fomos felizes. Completamente felizes.
E partiu Barra Grande 2010/2011!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Volta ao mundo e a decisão de partir

A decisão da viagem volta ao mundo não soou estranha aos ouvidos dos meus pares. Não é novidade meu desejo de viajar, minha pressa em conhecer o mundo ou minha coragem e entrega quando o assunto é viagem. Ainda assim. Não acordei da noite pro dia com coragem, dinheiro e decisão pronta para interromper uma carreira, deixar relacionamentos pra trás, abandonar bens materiais e partir pra uma viagem pelo simples prazer de viajar. Foi um processo. Processo, esse, que durou 1 ano e meio, envolveu 2 viagens internacionais  e a vida que se passou aqui no Brasil (e passou feliz) durante essas duas viagens.

Divido, a seguir, esse exercício de “should I stay or should I go”, cuja a resposta vocês já conhecem: GO!!!

Australia, julho de 2009. Minha viagem volta ao mundo começa aqui. Não sei se foi o clima, a beleza natural, os viajantes que encontrei no caminho, as paixões que acumulei. Mas Australia me resgatou um desejo de explorar o mundo, até então guardado, e a partir daí vivi o período mais vivo, intenso, completo da minha vida. Tornei-me mais interessada, mais interessante, mais intensa, mais ousada, mais feliz. E face a tamanho poder e desapego, meus pilares de construção de vida, carreira, amor deixaram de fazer sentido e fui tomada por uma sequência de palpitações, novos desejos e dúvidas... quantas dúvidas! Ora queria sair do País para estudar, ora para trabalhar, ora para atuar numa ONG, ora não tinha mais forças e queria simplesmente ir.

Frente a tantas dúvidas, vem Europa e tudo que ela trouxe consigo e me deu de volta a calma: voltei de lá jurando de pé junto que qualquer projeto no exterior fora deixado de lado nesse momento em detrimento de uma vida completa no Brasil. Revisitei minha escolha de 8 anos atrás por São Paulo como cidade pra estudar, trabalhar e construir uma vida, um apartamento, um ciclo de amizade dignos de chamar São Paulo de lar. E por meses me apeguei a essa sensação deliciosa de estar onde queria estar, organizando o que estava fora do lugar. E organizei a vida: Questionei minha carreira, considerei mudar de área, retomei a motivação. Investi no meu apartamento, cobri as paredes de fotos, as estantes de livros, guias, mapas e lembranças acumuladas ao longo das viagens. Procurei mais simplicidade e menos ostentação no meu estilo de vida e São Paulo me surpreendeu com cinemas de bairro, botecos escondidos, pessoas evoluídas. Fui mais à praia nos fins de semana pra resgatar minha energia e apesar das poucas idas ao interior, estive mais próxima da minha família do que nunca. Procurei auto-conhecimento e evolução espiritual através de terapia, meditação e respiração (Em tempo: não, não virei neo-zen. As palpitações continuam, continuo freqüentadora assídua de botecos e festas que acabam às 11 da manhã, continuo administrando minhas ressacas com Coca-cola normal (!) e banho gelado e o prazer pela carne – em todos sentidos – permanece voraz).

Quando parecia que eu finalmente tinha retomado a construção de uma vida aqui.... O travel bug volta a me afligir. E daí caiu minha ficha: Não importa o quão completa eu seja no amor, na carreira, na família, no meu estilo de vida... Eu sempre vou olhar pra trás ou pra frente procurando essa viagem. Hoje escolho uma viagem completa por  uma vida de volta ao Brasil completa. E nesse eterno paradoxo, precisei querer ficar pra conseguir partir.

Hoje enxergo a riqueza desse processo na minha decisão e o poder do tempo na maturidade da minha face viajante. Precisei desse tempo para me munir de cultura e conhecimento. Para alimentar minha paixão por viagens. Para experimentar os mais diversos efeitos que uma viagem desperta na alma, corpo, mente e coração. Para conhecer viajantes que me inspiraram. Para desapegar do planejamento e entender a beleza do inesperado. Precisei entender que meu apetite por viagens deriva do movimento. Não quero morar, não quero estudar, não quero trabalhar em nenhum desses lugares que me encantam mundo afora (Por  isso uma volta ao mundo e não uma pós, uma oportunidade profissional, meses estudando um nova língua ou a culinária local). Precisei, ainda, entender e viver o desapego e o apego. Precisei do desapego que Australia me causou, e da retomada ao apego que Europa me despertou. Australia me puxou pro mundo, Europa me trouxe de volta para casa. Precisei dos meus amores no meio do caminho. Precisei das paixões arrebatadoras da Australia. Precisei viver um relacionamento no Brasil semanas antes de partir para a Europa para entender que o apego ainda me cai bem (e me faz bem). E precisei perceber que o amor às vezes cessa. E que só livre de afetações amorosas eu posso entender minhas mais puras vontades, necessidades e anseios.

Continuo cheia de palpitações e questionamentos. E ainda bem! Não é a minha vida perfeita e equilibrada que me joga no mundo. É minha vida caótica, cheia de pressa, cheia de sede, completamente impulsiva que me leva a tomar uma decisão dessa. Mas essa decisão não foi impulsiva. Foi ensaiada "n" vezes ao longo desse processo. Mas só agora tenho a clareza para essa decisão e a maturidade para essa viagem. 
Parto com pressa do novo, do desconhecido, do inexplicável. E daqui há 1 ano volto para o conforto da minha vida no Brasil. Pelo menos, that’s the plan. Se é que possível ter planos sobre uma viagem desse teor, que toca, muda, transforma. E que venha a partida, a volta e o inesperado. Partiu! =)

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Volta ao mundo em 203 dias, partiu!

Divido com vocês meu mais profundo sonho de vida e que há algumas semanas vem ganhando status de projeto. Licença para chamá-lo de volta ao mundo. Pois bem... Largo meu emprego, alugo meu apartamento, deixo meu carro na garagem e... passagem volta ao mundo comprada! 

203 dias a contar de 12 de abril de 2011, 90 horas de vôos, 9 países, 5 continentes, alguns zeros a menos na conta bancária são alguns números desse projeto de valor sentimental inestimável.

Volto aos encantos da Oceania, meu canto predileto do mundo, exploro o Sudeste Asiático na companhia de 3 amigas parceiras de outras viagens, parto sozinha para os mistérios de China e Índia (frio na barriga...), encontro familiares e amigos de outras épocas na beleza exótica da África e pra fechar uma viagem de volta ao mundo, nada como a cidade mais cosmopolita de todas, “the world in one city”: Londres.

Mais sobre a passagem:  
Todo meu roteiro foi emitido em um único bilhete, com vôos operados pelas mais diversas empresas aéreas mundo afora. Explico: 3 grandes alianças de empresas aéreas se organizaram e criaram a modalidade passagem volta ao mundo (Sim! Existe uma passagem volta ao mundo!). São elas Star Alliance (a mais famosa, TAM faz parte da aliança), Oneworld (forte em Sudeste Pacífico e Ásia) e Skyteam (forte em Américas e Europa). Escolhi a Oneworld pra atender meu roteiro focado em Oceania, Ásia e África.  

Via de regra, paga-se um valor fixo que dá direito a 4/5/6 continentes (incluindo o continente de partida) e um número limite de paradas. Preço e quantidade de paradas variam conforme a categoria escolhida. No meu caso,  5 continentes e 16 paradas pela bagatela de 4 mil dólares (Para terem idéia, paguei 2 mil dólares por uma ida e volta Australia). 

Algumas regras para caracterizar uma volta ao mundo: voar na mesma direção (sentido horário ou anti-horário), cruzar os oceanos Atlântico e Pacífico uma única vez, regressar ao continente de onde partiu e concluir o roteiro em até 360 dias.

O ideal é que no momento da emissão da passagem, tenha-se claro o exato roteiro a cumprir (cada remarcação custa USD 125). As datas podem ficar em aberto, mas dada a dificuldade para conseguir datas e assentos livres (só uma parte do vôo é reservado para a categoria volta ao mundo), decidi deixar todos os vôos agendados e qualquer mudança no meio do caminho remarco as datas sem custo adicional (quem sabe decido estender a viagem por até 360 dias? Vai depender da situação financeira, física e emocional no decorrer da viagem).

A viagem volta ao mundo começa no mapa interativo do site da Oneworld, a medida em que se escolhe que países mundo afora você deseja explorar. Sabe brincar de fincar pininho no mapa mundi? Divertido, claro, mas nada simples: levei semanas para organizar um roteiro inteligente e na medida do possível lógico, considerando restrições de rotas, datas e classes de tarifas. 


O maior desafio foi traçar um roteiro que conciliasse minhas paixões por cada um dos países com as rotas operadas pelas empresas aéreas do grupo. Ex: Pra conseguir ir de Bangkok,Tailândia à Bangalore,Índia, vou ter que ir até a China (!) para então voltar à Índia. Mesmo cenário pra África: volto à China (sentido oposto à minha próxima parada) para conseguir um vôo até Johanesburgo, África do Sul. Bali,Indonésia e Maputo,Moçambique ficaram fora do bilhete volta ao mundo por dificuldades logísticas. Mais um porém: a intenção era restringir o roteiro a 4 continentes (América do Sul, Oceania, Ásia e África). E então o agravante: nenhuma das companhias aéreas da Oneworld operam a rota África – América do Sul. Me vi obrigada a incluir Europa (sofro!) e escolhi Londres para explorar a capital com a calma (apesar do rush londrino) que a cidade merece.

O roteiro final ficou assim:  

São Paulo-Auckland,NZ-Sydney,AUS-Cairns,AUS-Sydney,AUS-Bangkok,Tailândia-Bali,Indonesia-Hong Kong,China-Bangalore,Índia-Hong Kong,China-Johanesburgo,África do Sul-Maputo,Moçambique-Cape Town, África do Sul-Londres, UK-São Paulo.

E partiu pro mundo...feliz! =)

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Ilha mais que bela

Depois de anos de intensivo eventos de aniversário, a idéia era  uma comemoração prévia dos meus 26 anos no melhor estilo "on the road", regado a champagne, na cidade maravilhosa, com amigas tão apaixonadas quanto eu por uma rota de fuga rumo praia.  Sem Rio de Janeiro, sem champagne, sem fim de semana meninas. No lugar, planos de última hora me levaram de Riviera à balsa São Sebastião - Ilhabela às 23h30 do último sábado na companhia perfeita de uma amiga de outras trips da vida (passadas e por vir). Num intensivo estrada ao som da coletânea completa de Chico Buarque, vivemos 18 horas de meu novo paraíso predileto: Ilhabela.

A noite começou no Estaleiro bar. O bar tem estilo, público e música de qualidade como há tempos não encontro no litoral paulista (exclui-se da lista o excelente Blues on the Rocks de Ubatuba, numa versão mais rock do Estaleiro).

E a noite virou dia na Praia da Feiticeira. De uma noite clara, o sol nasceu enquanto alguns dormiam e outros falavam de música, cultura e viagem. E tinha um moço do chapéu. E por que esquecemos o violão no carro mesmo? Que noite feliz e digna de encarar "curvas sinuosas" e uma balsa de dar sono na madrugada litorânea.

Dia seguinte, hora de explorar a vila e tomar um último sorvete. E que vilarejo charmoso. Novo e velho se misturam: de um lado a arquitetura do século 19 e riqueza cultural de um povo bairrista. Do outro, o melhor da vida contemporânea: achados gastronômicos,  forte movimento cultural e um comércio aquecido por lojas, cafés e livrarias. Conversamos com moradores completamente apaixonados pela Ilha: nativos, gringos, paulistanos que trocaram a vida urbana por um lifestyle mais provinciano. Sim, a ilha tem um bairrismo absoluto. Apesar do turismo, há um esforço geral em manter viva  a essência da Ilha. Não mergulhamos, não exploramos a Bonete do lado de lá do mar, não vimos o pôr do sol. E salve a pousada de 80 reais/ casal pra explorarmos a Ilha com a calma que ela merece. 

Encerro com um curta sobre a preservação da essência caiçara na Ilha, produzido pela minha amiga querida e grande responsável por termos colocado os pés ali nesse fim de semana. E salve a Ilha mais que bela!

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Paul McCartney live @ SP


Aos nostálgicos que foram, aos que não foram e aos eternos amantes de Beatles, divido a seguir a experiência do 2º show do Paul McCartney na minha vida (e no meu ano).

Troco a experiência rica, única e solitária do show do Paul em Dublin de 5 meses atrás por uma experiência no melhor estilo “Happiness is only real only shared” na companhia perfeita de 4 grandes amigas, cada uma de um canto da minha vida, mas nessa noite conectadas pela paixão Beatles. No lugar dos 38 mil irlandeses educados que dividiram comigo o show de alguns meses atrás, um platéia vibrante de 64 mil brasileiros lotou o estádio do Morumbi. Havia uma comoção geral, a mensagem de amor, luta e paz mundial conectou uma legião de fãs das mais diversas gerações naquele estádio lotado: a pista tinha ares de festival de música numa mistura perfeita de tribos; um menino de 8 anos cantando as canções de algumas décadas atrás; uma senhora cega enlouquecida ao som de Ob-la-di, ob-la-da; casais apaixonados; pais, filhos e netos. Todos distintos no tempo e conectados pela música.
Impossível evitar a sensação de déjà vu do show em terras gringas. O efeito surpresa estava descartado: eu conhecia o setlist da turnê e a sensação que cada música me causava, tive tempo de explorar mais os passos Paul pós Beatles (Fã do John, o show de Dublin me despertou interesse pelo brilhantismo musical do Paul na fase The Wings), conhecia os efeitos especiais e piadinhas que vinham pela frente. Ainda assim, a cada música senti a adrenalina de alguns meses atrás, agora com novas emoções e novos sentimentos. E a emoção de ouvir uma entidade beatle no palco é o tipo de experiência que nos deixa em êxtase, nos toca, nos marca 1, 2, 3 vezes ...

O show
O processo show no Brasil dá preguiça, fato. Estacionamento a 150 reais, trânsito, calor, filas e fura-filas, cambistas, aquele caos brasileiro q a gente conhece e participa. Mas quem lembra desse stress sentado no tablado da pista, tomando uma cerveja, ao som de primeira do DJ Mauricio Valladares com um setlist pré-show perfeito enquanto aguardávamos um Sir Beatle?

Ao primeiro acorde com pontualidade britânica, Paul abre o show com “Sitting in the stand of the sports arena, waiting for the show to begin. Red lights, green lights, strawberry wine, a good friend of mine follows the stars, Venus and Mars are alright tonight”. Venus and Mars are alright tonight: Nada traduzia melhor aquele céu lindo, iluminado por uma lua cheia e por flashes de luz, celulares e câmeras num estádio lotado com 64 mil pessoas aos gritos, lágrimas e coro de pura emoção com a entrada do Paul no palco.

Impossível não se emocionar mais uma vez ao ouvir as homenagens de Paul a seus parceiros de banda e amores de uma vida: a performance tocante de Here Today gravada para John Lennon após sua morte, Something aos acordes de um bandolim homenageia George Harrison pela sua belíssima composição de uma das minhas canções prediletas, e My Love como declaração de amor eterno à sua “gatinha Linda”(McCartney).

Os mega hits de 40 anos atrás dos Beatles são cantados em coro por uma platéia eufórica e acelerada: All my loving, Ob-la-di, ob-la-da e Eleanor Rigby  são alguns dos vários clássicos. E pros que ousam falar que Beatles e Paul não têm nada de rock n’ roll, a intensidade de Helter Skelter e os clássicos Jet, Band on the Run e Let me roll it da fase The Wings, vêm pra provar o contrário (quem explica a guitarra solo de arrepiar do Let me roll it antes de começar a cantar “You gave me something I understand, you gave me loving in the palm of my hands”?).

Mas nada se compara à sequência que se inicia com a brilhante A Day in the Life, no melhor estilo musical de Paul, com a junção perfeita de músicas inacabadas (nesse caso, a parte lenta é de autoria Lennon e a parte acelerada "Woke up, felt out of bed...” foi composta por Paul)

 Em seguida, a platéia é coberta por bexigas brancas num movimento de paz ao som em coro de “All we are saying is give peace a chance”. E fui de novo tomada pelo exato mesmo sentimento que tive em Dublin: Naquele momento, toda a platéia emocionada acreditava e clamava pela paz mundial. Eu observava aquela multidão de gente e não acreditava. Acho que nem o Paul acreditava. O momento foi mágico, espiritual, transcendental no melhor estilo John Lennon. 
Em seguida, sem nenhuma brecha pra platéia recuperar o fôlego antes de novas emoções, Paul dedilha a belíssima canção e toca os corações com words of whisdom de Let it be.
As lágrimas cessam, mas a explosão de adrenalina tem seu ponto alto com o show de fogos ao som de Live and let die, enquanto a troca de imagens psicodélicas no telão alternam momentos rápidos e lentos, na exata troca de ritmo da música. 
E pra fechar a primeira parte do show, Hey Jude. Dispensa comentários. Se até essa hora tinha me contido a algumas lágrimas discretas, nessa hora chorei. 

Absolutamente imersa nas minhas emoções no show de Dublin, não tinha percebido a intensidade dessa sequência. Dessa vez entendi o efeito dessas 5 canções belíssimas e da potência musical e poética que elas ganham combinadas. Em mim e num público de 64 mil pessoas.

Após 2 sequências de bis com clássicos de qualidade da era Beatles, Paul encerra o show no melhor estilo de despedida com Sgt. Pepper's lonely hearts club band e com a mesma mensagem de amor universal que fechou minha experiencia em Dublin: “and in the end… the love you take, is equal to the love you make”.

And in the end, o Paul caiu no palco. E 64 mil brasileiros saíram do estádio do Morumbi felizes, emocionados e certos de que presenciaram um dos mais belos shows de suas vidas.

sábado, 20 de novembro de 2010

Dublin: all about pints, folk music and Paul McCartney

 Dublin é dessas cidades que parecem tiradas de outro século, outra dimensão, com cenário e personagens de desenho animado adulto: ruas de paralelepípedos cheias de becos nada charmosos, músicos e artistas nada convencionais, bêbados cantando pelas ruas abraçados no melhor estilo "fulano é um bom companheiro", senhorzinhos ruivos, barbudos e atarracados caídos bêbados pelos cantos do Temple Bar (o mais boêmio dos bairros, com o mais famoso dos pubs, também chamado Temple Bar).

Nada como uma cidade regada a Guinness pra fazer o povo feliz: os irlandeses têm uma alegria de viver nata e uma sede por álcool que nem meus anos de boteco me permitiram acompanhar (depois de 2 semanas de pints e mais pints de cerveja em UK, não podia fazer feio na capital da boêmia alcoólica). O circuito pubs foi intenso. Coisa de 5, 6, 7 pubs em um dia (7 foi o recorde diário). Na companhia de um novo casal de amigos brasileiros que moram em Dublin, desbravamos o melhor dos pubs dubliners: o pub mais antigo, o mais turístico, o mais local frequentado por velhinhos irlandeses... Tudo é desculpa pra conhecer um pub novo. Liffey river, St Patrick's Cathedral, Trinity College e outros pontos turísticos eram a deixa pra "Tem um pub aqui do lado que você precisa conhecer!". E assim fui, me embriagando ao som de um delicioso folk irlandês que toca em 10 de cada 10 pubs.


E no meio de tanto alcool e folk music, tive uma experiência que extrapola a categoria "melhores momentos de uma viagem" e entra pra listinha "melhores momentos de uma vida". Tive a sorte de pisar em solo dubliner a tempo do show do Paul McCartney (esse mesmo "Up and Coming Tour" que chega amanhã à São Paulo. Com a diferença que paguei apenas 70 EUR no dia do show, cheguei meia hora antes e fiquei bem na frente do palco. Duvido que minha experiência amanhã no Morumbi, ainda que muito especial, se equipare à simplicidade de ir a um bom show em terras gringas). 

Paul McCartney, RDS Arena, Dublin (viram que pertinho do palco?)

O show foi de uma intensidade absoluta: o sangue irlandês do Paul, a boêmia e riqueza musical do povo irlandês, o dia cinza, e o fato de estar sozinha fizeram do show a once in a lifetime experience. Do outro lado do mundo, sozinha, ouvindo versos de musicalidade pura e sabedoria de um Sir beatle. Naquele momento acreditei nos sentimentos mais puros da humanidade. Eu estava completamente apaixonada pela vida, pela minha família, meus amigos, pelo amor, pelo Brasil, pelo mundo, pela paz mundial. Tudo fazia sentido naquele momento. E eu fui feliz, completamente feliz nessas 3hs de show. 

Ao ouvir Get back to where you once belonged, impossível não resgatar lembranças de infância com o Blue Album Remastered que eu ouvia quando moramos em Cardiff (meus pais não têm metade da paixão por música que eu desejaria, mas aos 8 anos de idade eu ouvia esse CD dos Beatles e Saltimbancos. Não posso reclamar, eles me apresentaram Beatles e Chico Buarque, duas das minhas grandes paixões musicais hoje. Quer educação musical melhor que essa?). E pensar que eles viveram essa mesma experiência, também sozinhos há 15 anos atrás em Londres (um dia foi meu pai, dia seguinte minha mãe, pois não tinham com quem deixar os filhos pequenos).

E numa sequência de belíssimas canções sobre paz, amor fraterno e justiça social, senti as dores de uma época Beatles que eu não era nem nascida e acreditei no amor ao próximo e na paz mundial. Quando o estádio cantava em coro All we are saying, is give peace a chance parecia que o mundo tinha parado e que a paz deixava, naquele momento, de ser ideologia. 

Frente a tantas dúvidas que eu tinha (tenho) sobre escolhas pessoais, amorosas, profissionais, filosóficas, senti calma a medida que o Paul dedilhava e cantava Let it be ("And when the broken hearted people, living in the world agree, there will be an answer, let it be"). 

E impossível falar de Beatles sem falar do amor romântico. Era dia dos namorados, eu tava apaixonada na época e no meio de tantas palavras lindas, dividi Hey Jude por celular com uma pessoa especial que tinha ficado no Brasil.  

O show fecha com a mesma canção que fecha meu álbum predileto dos Beatles, Abbey Road, que por sua vez foi a última música (do último álbum) gravada em estúdio com os 4 Beatles reunidos. Apropriado, não? Ao som da linda e simples mensagem de amor universal, fecho minha experiência dubliner: And in the end, the love you take is equal to the love you make

PS: Uma experiência que era pra ter sido a bordo de um carro, visual campestre com um verde escancarado da região de Wicklow Mountains e Galway no interior e  costa irlandesa, teve mudanças de rumo algumas semanas antes da viagem. Mudei o roteiro, mudei a companhia, mudei os sentimentos. E foi um dos momentos mais ricos da viagem. E manda uma Guinness pra brindar os  contratempos e mudanças de percurso que enriquecem viagens e a vida.
 

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Dossiê Tropa de Elite 2: O inimigo agora é outro

 
Em tempos de preguiça política e definição eleitoral, surge Tropa de Elite 2: O inimigo agora é outro de tapa na cara, murro no estômago, nó na garganta. Perdoem-me pelo anti-climax, mas saí do cinema após alguns dias do primeiro turno de uma eleição marcada por troca de acusações demais e discurso político de menos, engasgada.
 
Os sentimentos despertados pelo brilhante Tropa de Elite  permanecem: a realidade corrupta por parte da Polícia Militar ainda choca, a bomba relógio das facções criminosas espalhadas nas favelas e penitenciárias de alta segurança do Rio de Janeiro ainda preocupa, a brutalidade com que o ser humano é tratado por criminosos e agentes do governo (ainda que justificável...) ainda dói. O brilhantismo do ator Wagner Moura na pele de um Capitão Nascimento mais melancólico permanece. O sentimento de revolta e senso de justiça num sistema marcado pela corrupção e impunidade é aguçado a medida que se desenrola a luta do herói Capitão Nascimento e anti-herói  Diogo Fraga contra um novo modelo de Máfia que extorque, chantageia, ameaça e mata, instalado pelas Milícias e por políticos de colarinho branco. O inimigo agora é outro extrapola o combate à violência e ao tráfico nas favelas e toma esfera e provocação moral.
 
Saio do cinema incomodada, provocada. E curiosa. Curiosa se o governo teve peito para investir recursos num filme que escancara a verdade obscura de um sistema sujo nomeado por votos e sustentado por um governo contaminado. Curiosa por ligar atos e fatos da triste realidade do Rio de Janeiro à trama montada no filme. Curiosa por traçar um paralelo entre os personagens corrompidos ilustrados na ficção com as personalidades ilustres ou não tão ilustres que vemos nos jornais envolvidos em escândalos diários. E minha maior curiosidade foi saber se existe na vida real uma personalidade que se equipare ao personagem Deputado Diogo Fraga, num papel de “Intelectualzinho de esquerda”, “Che Guevara” “ativista dos direitos humanos” e suposto “defensor de bandidos”. E nada como um fim de semana com cariocas sob o gosto amargo da realidade do Rio de Janeiro, pra conhecer um pouco mais de fatos e teorias (algumas com ares de teoria da conspiração) por trás das telas.

Entre discussões acaloradas sobre as referências da vida real que deram origem aos personagens, tecem teorias e fazem um exercício interessante de “dar nome aos bois”. As opiniões se dividem sobre qual governo foi pano de fundo para o filme: A abertura das Milícias se associa ao governo Garotinho/Rosinha e todos os escândalos que trouxe consigo ou tem vestígios do atual governo de Sérgio Cabral e sua polêmica participação em festas de favela no melhor estilo miliciano conforme vemos no filme? Os personagens de Guaracy, secretário da segurança e do PM corrupto Rocha referenciam uma série de nomes ligados aos esquemas e escândalos das Milícias (ex-chefe da Polícia Civil Àlvaro Lins, recentemente preso acusado por lavagem de dinheiro, corrupção e participação de quadrilha; Marcelo Itagiba eleito deputado federal sob suspeita do apoio dos milicianos e envolvido em escândalos; Os deputados Jerominho, Nadinho e outros "inhos" que instauraram um poder de base miliciana na Favela Rio das Pedras... E outras várias personalidades acusadas dos mais hediondos crimes políticos e civis. Claro que vários desses ainda soltos). O poder da mídia na urna do apresentador sensacionalista Wagner Montes, recém eleito o deputado mais votado do Rio de Janeiro, ilustrado no filme na pele do apresentador e eleito deputado Fortunato (em tempo: Padilha descarta indícios de que ele tenha se envolvido nos escândalos das milícias como seu personagem no filme). Pelo paralelo, um tanto quanto real, que o filme traça com episódios de um passado não muito distante, como a rebelião e conflito de diferentes facções criminosas de Bangu 1 (na época liderado pelo Fernandinho Beira-Mar, e no filme na pele do ator Seu Jorge) ou com episódios envolvendo uma imprensa sensacionalista, corrompida a concessões públicas e ancorada em políticas partidárias como vimos no filme.

 “Apesar de possíveis coincidências com a realidade, esse filme é uma obra de ficção”, diz em branco no preto os letreiros da 1ª cena do filme. O diretor, porém, não esconde que TV Senado, TV Câmara e uma seqüência de troca de acusações e aberturas de CPIs foram sua principal fonte de material criativo. A trama tece uma mistura total e parcial de fatos, personalidades e escândalos da vida real. Entre verdades e meias verdades, a única inspiração real e declarada do diretor fica por conta do “Intelectualzinho de esquerda”, “Che Guevara” “ativista dos direitos humanos” e suposto “defensor de bandidos”, no papel do antagonista do filme, deputado Diogo Fraga. O personagem foi inspirado no deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), reeleito como segundo mais votado do estado do Rio. Sob ameaça e planos de atentado dos milicianos interceptados a tempo, teve proteção da polícia civil, andou de carro blindado e seguranças durante sua corrida eleitoral e considerou deixar o país caso não fosse reeleito. Professor de História, ativista declarado pelos Direitos Humanos, promoveu discussões sobre a situação carcerária do Brasil e intermediou rebeliões e conflitos nas penitenciárias de alta segurança do Rio de Janeiro ao lado do BOPE. Como deputado, instaurou a CPI das Milícias que prendeu centenas de milicianos,  promove debates importantes sobre segurança pública no Rio de Janeiro, tem um olhar crítico sobre o tão aclamado projeto de Pacificação instaurado pelo governo Sérgio Cabral, através das UPPs e estende a discussão para violência urbana e falhas no “sistema” do país e propõe e luta por mudanças estruturais na segurança pública. Reconhecem as semelhanças? A excelente performance do deputado  nas eleições refletem uma sociedade insatisfeita, insegura e incomodada com um modelo de corrupção, impunidade e formação de poderes indevidos. Enquanto São Paulo protestava votando no Tiririca, a população carioca deu seu voto a favor de uma voz ativa num governo corrompido. 
 
Esclarecidas as coincidências entre realidade e ficção e como captadora de recursos de agência de fomento (esse é meu trabalho, por sinal), curiosidade 2: Teria o governo financiado um filme que ataca o “sistema” na mais alta esfera política? A resposta é não, o filme não recebeu um centavo dos incentivos audiovisuais do país. A ironia fica por conta do próximo filme de José Padilha, “Nunca antes na História desse país”, com trama central no Mensalão: O filme foi contemplado pelo BNDES com 1 milhão de reais para a produção do filme. Agora é aguardar as reações e tentativas de intervenção de deputados, governadores e políticos com as mãos sujas sobre o novo filme. 
 
Num país onde a moral tem nuances entre o preto e o branco, que o filme nos leve a refletir e nos posicionarmos quanto a temas sérios e complexos como política, Direitos Humanos, segurança pública, problemas sociais, e um poder que corrompe e se reinventa. E num instinto natural de revolta e de busca por culpados numa realidade que assusta, o filme nos aponta o dedo e o incômodo antes causado com o inocente baseado acendido alimentando o tráfico nas favelas do 1º filme, agora dá lugar a mercadorias impalpáveis: o voto, o posicionamento partidário, a decisão pelo azulzinho ou vermelhinho. E em tempos de definição eleitoral e posicionamento partidário, o anti-climax e desconforto é geral até para os mais corretos dos cidadãos... O sistema é foda!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Once upon a time in Cardiff

For the old fairy tail days and childhood dreams: Once upon a time ...
... in far, far away land ... 
... there was a castle ...
... an old Cinderella dumped by Prince Charming ...  
...and a young princess dreaming about true love...
...a modern kitchen...
... and please... a double bed is SO necessary... 
Life as a princess apparently not THAT interesting... charming, but not for me.Back to reality, wild, not glamorous, cool, crazy life!
Voltei, queridos. Após uma abertura digna de contos de fadas infantis, bem vindos aos meus dias de volta à infância de Cardiff (Dos 8 aos 10 anos, morei com minha família nessa capital do País de Gales, que em nada me lembra ares e ritmo de capital européia).

Cheguei às 11 da noite na rodoviária de uma Cardiff chuvosa, deserta e pacata. E por desencontros e desorganização, sem o telefone do meu amigo de infância, Luke, que me receberia em sua casa. Após algumas tentativas sem sucesso de contatos, segui pra um hostel com bar nas suas estruturas (Depois da temporada etílica em Londres, inadimissível dormir sem antes tomar uma última pint de cerveja em temperatura ambiente. E numa cidade que não parecia ter uma loja de conveniência aberta naquela segunda-feira a noite, um pub no hostel era uma boa alternativa...). De novo, aqueles imprevistos felizes: No pub, conheci 2 típicos galeses e um escocês naturalizado cidadão de Cardiff músico e guia de Cardiff (www.myspace.com/trystanhuwclarke). Ele me relembrou a História da cidade, me ensinou o melhor da Folk Music na minha procura por boas bandas européias e se divertiu quando eu contei minha versão distorcida da História que afirma que o Cardiff Castle era o castelo da rainha enquanto o Castle Cogh (esse pequenino e de conto de fadas do começo do post) era da amante do rei. Eu juro que ouvi essa história nos meus dias de Cardiff... ou foi delírio de uma mente infantil fértil.  
Consegui falar com o Luke, e dia seguinte fui recebida numa casa e família deliciosamente welsh, com direito a xícaras e mais xícaras de chá com leite ( e eu ODEIO leite!), lençóis e edredon pink comprados especialmente pra mim (numa família de 3 filhos homens jogadores de rugby, acho que a fofa da mãe do Luke sempre desejou secretamente comprar roupa de cama feminina e eu fui a desculpa perfeita). Foi experiência pura ficar hospedada numa casa com uma rotina que me leva de volta aos 8/10 anos de idade (exceto que agora todas as casas têm chuveiro. Ufa! Confesso que me preocupei qual seria a dinâmica dos banhos numa casa welsh. Dia desses conto do meu trauma de infância com banhos europeus...).

Andei pelas ruas do bairro Birchgrove, voltei a Richs Road, achei a casinha onde moramos. 

Fui à escola onde estudei, mas não me deixaram entrar e reviver os dias de Van Gogh, Vikings, coral e lembrar cada centímetro de experiência naquela escola. Sequer me deixaram tirar foto da fachada! (Esses dias de paranóia e neurose com a preservação da integridade infantil me fizeram abdicar da mais pura experiência de infância.Tsc, tsc, tsc). 

Conheci o novo complexo gastro-cultural em Cardiff Bay. A cidade cresceu, evoluiu mas continua com o mesmo ritmo interiorano que me recordo. 


Apesar do céu azul, o dia foi tomado por uma tempestade e o máximo que eu consegui ver do gigante Caerphilly castle foi isso:


E pra fechar no melhor estilo welsh, um circuito pubs com meus amigos de infância Luke e David. Pra uma cidade pacata, a noite foi bem agitada...(Esses welshes bebem demais... Comecei a me preocupar com o intensivo etílico da próxima parada, Dublin...).
Não consegui dar uma voltinha pela Queen Street e fazer compras na Marks & Spencer. A Virgin do Capital Shopping fechou e não consegui encontrar o sorvete italiano de frutas secas de 15 anos atrás. Meu máximo de experiência com sabor de infância deu-se graças aos litros de apple juice que eu tomei. 

Voltar à infância me trouxe mais do que boas recordações. Compreendi a origem dos meus valores por uma vida mais simples, entendi que pra viajar não  é preciso pressa (meus pais só começaram a fazê-lo com 35 anos...) e comecei a me questionar sobre qual cidade, estado, país combina com o estilo de vida que eu quero construir. Talvez meu "processo reverso de apego" tenha começado aí... 

Próxima parada: Dublin, pints e Paul McCartney

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Desabafo: preguiça política com final feliz (?)

Apesar de uma queda por temas políticos, econômicos e sociais, confesso que essa disputa eleitoral me causou uma imensa “preguiça política”.

Preguiça de presidenciáveis discutindo um episódio de bolinha de papel em pleno horário político, enquanto pouco se falava sobre propostas de governo que não fossem ferramenta rumo à vitória (a polêmica Bolsa Família foi a principal delas, vide post. E não, não me refiro à força PT no Nordeste. Alguém explica a proposta do Serra de dobrar o Bolsa Família nos últimos minutos do 2º tempo?).

Preguiça do atual presidente esquecer que seu mandato se estende até o dia 31 de dezembro desse ano e que até lá, seu cargo lhe exige gestão ativa e comportamento para tal, ainda numa disputa  política em que pretende eleger sua apadrinhada. 

Preguiça por presenciar atos e declarações que põem em dúvida a absoluta liberdade de imprensa, desrespeitando a história de democracia do país. Não bastasse o atual governo apostar em mecanismos de controle aos veículos de comunicação - “observatório de conteúdos midiáticos” (!) – tivemos o desprazer de presenciar o atual presidente perder a elegância e o bom senso ao acusar a imprensa de golpista e mentirosa. Na outra ponta, o mesmo jornal que se declara “há 461 dias sob censura”, demite a Maria Rita Khel pelo belíssimo artigo “Dois Pesos...” que coloca abaixo a teoria de que os pobres do Nordeste são ignorantes demais e seduzidos pelo “bolsa-esmola” pra tomar uma decisão de voto pela democracia do país. "Prefiro o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras", disse a nova presidenta. Poético, não?! Assim espero que seja no próximo governo.

Preguiça da candidata à presidência eleita ter cedido a discursos prontos e marketeiros e pouco ter mostrado sua cara, postura e estilo de gestão (Confesso que me impressionei com o posicionamento dela nesses últimos 5 dias. Mais serena, assertiva e sem desviar de assuntos polêmicos como vimos na campanha. Espero, de coração, me surpreender positivamente. A CPMF tá aí pra vermos até onde não passa de discurso...). 

Preguiça de resultado de pesquisas eleitorais duvidosos.

Preguiça dos votos de protesto que colocaram o Tiririca no governo com mais de um milhão de votos.

Preguiça da abstenção dos eleitores (e aqui, faço minha mea culpa... Em meio a tanta preguiça e decepção, confesso que considerei dar meu voto à Iemanjá no 1º turno, com um fim de semana de sol na praia. Voltei à razão ou à esperança antes disso...)

Preguiça “político/religiosa”: De um lado, a Igreja liderando um movimento anti-Dilma; no outro, intelectuais e artistas que eu admirava pela coerência, me decepcionaram ao evocar entidades divinas num movimento Pró-Dilma. Lamentável.

E aos meus caros amigos militantes de esquerda... E aos meus admiráveis amigos intelectuais de direita... Me perdoem, mas preguiça da guerra armada que virou twitter, facebook, e minha caixa de email lotada de exageros, ataques e falta de bom senso. Por um lado, foi quase bonito ver um público novo e cheio de energia lutar por suas opiniões, partidos, ideais. Há tempo não via esse engajamento e acredito que os canais de mídia e acesso à informação promoveram esse debate. Por outro lado, vi pouco material sério e argumentos coerentes. Enquanto o que me agrada são discussões conceituais, filosóficas, partidárias e posicionamentos sérios e ponderados, o que mais vi  foi fanatismo insensato dos 2 lados, focado no ataque à oposição, no exato mesmo padrão que se estabeleceu na disputa Dilma x Serra.

Ainda assim, preciso agradecer a enxurrada de emails, posts e tweets. Me muniram de informações (não sei o quanto delas verdadeiras, mas tive acesso a um mundo de informações. E não deixei de ler um email sequer, por mais absurdo e incoerente que julgasse) e conhecimento necessário pra formar uma opinião coerente com minha bagagem de conhecimento, valores e razão. Ainda que tenha me rendido preguiça... Muita preguiça!

Numa eleição que parecia sem final feliz (e dá pra se falar em final feliz?!), alguns fatos, no entanto, retomaram meu engajamento político. Tive algumas alegrias, um fundo de esperança e um tapa na cara. O sucesso absoluto da Marina no 1º turno, em resposta a uma luta de ética política que já nem lembrávamos que existe e a esperança de uma oposição liderada por ela para as eleições 2014. O senador eleito Aloysio ter derrubado o candidato Netinho, nos livrando de um Senado composto exclusivamente por representantes no mínimo lamentáveis e despreparados para o cargo – Marta Suplicy e Netinho. Os 4 milhões de votos do excelente candidato ao Senado, Ricardo Young do PV. A volta da discussão da Ficha Limpa, que parecia abandonada  face a tantos escândalos e outras mesquinharias nessa corrida eleitoral. O protesto a favor da democracia liderado pelo fundador do PT, Hélio Bicudo, trouxe à tona questões que viraram tão naturais no atual governo, que já nem mais reconhecíamos como absurdo (minha parte predileta: “É intolerável assistir ao uso de órgãos do Estado como extensão de um partido político, máquina de violação de sigilos e de agressão a direitos individuais”. Lindo!).

E de tapa na cara... Bem, fica por conta do elo perdido entre esquerda e direita, da dúvida até onde vigora Direitos Humanos num sistema fajuto e imoral alimentado por votos, de um modelo de impunidade e corrupção ao qual tornamo-nos acostumados. Tudo isso perfeitamente ilustrado na obra prima Tropa de Elite 2. Tapa na cara, nos faz pensar... Me fez pensar. Com coragem e coerência. E por isso, deixo de lado a preguiça política e o colorido do meu blog de experiências de viagens deliciosas pra me posicionar sobre um assunto denso e complexo, que me tira da zona de conforto. 

Aguardem dossiê Tropa de Elite. 

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Shiny happy London

Em meio a uma atmosfera cinza, ingleses, indianos, paquistaneses, africanos, chineses, brasileiros vivem no caos de suas vidas anônimas. Vivi meus dias londrinos que em nada lembram o cinza de 10 anos atrás. Ou o caos.


Ao som, energia e astral de "Here comes the sun”, divido a seguir, meus prazeres e experiências londrinas numa versão ensolarada, florida, feliz. Welcome to my shiny happy London days in slow motion!
Uma brasileira, parceira, amiga com life style londoner pra compartilhar o melhor de Londres ...
St. James Park
uma cama confortável e quentinha na casa do casal de novos velhos queridos amigos. Sem hora pra acordar, sem agenda pra cumprir, horas de prosa, vinhos e queijos deliciosos nas madrugadas londrinas ... 

manhãs, tardes e noites no pub The Red Lion and Sun vivendo uma vida quase londrina regada a pints e mais shots de Amstel, Cyder, Jägermeister, Single Malt... 
Sob comando do meu conterrâneo PC (casal acima) e sociedade do neozelandês Heath, o pub é sucesso garantido pra uma experiência puramente londrina: no charmoso bairro de Highgates, o pub impressiona quando o assunto é uma pint bem tirada, carta variada de bebidas, gastronomia que não deixa a desejar numa terra que ainda pertence ao fish and chips. O público predominante inglês - coisa rara em Londres, ultimamente – varia em faixa etária, profissão e estilo. O charmosérrimo Clive Owen do Closer é frequentador assíduo - mora nas redondezas. E cruzei com o diretor de TV inglês referência em comédia, Terry Jones.

uma noite interessante com chefs de cozinha, bartenders, uma fotógrafa e um milionário dono de metade dos pubs londrinos, com um conversível estacionado na porta do pub. Todos na mesma mesa de pub numa sequência de shots de
Jägermeister
mais shots de Jägermeister num ponto de ônibus qualquer pra brindar o encontro com um amigo australiano querido que conheci na Bahia (dúvida: Como ninguém havia me apresentado Jägermeister até então?!)

... o melhor do fast food mais hype e underground de Londres
Nova febre londrina, The MeatWagon, o carrinho de burguer itinerante é seguido no twitter (@themeatwagonuk) por milhares de carnívoros doidos pela novo endereço. Tive a sorte do carrinho escolher The Red Lion and Sun pro meu 1o dia de Londres. Depois do último burguer na chapa, os donos do movimento juntaram-se a nós pra uma pint e cometi a ofensa de mencionar o quão famosos eles estão.  O que ouvi foi algo do tipo: "Popular? Absolutely not. Not our idea to grow as a popular brand. I'd say underground. And let us stick to that". Cool, han?! Entendem porque Londres ao lado de Istambul e Hong Kong vêm desbancando Paris e NY quando o assunto é gastronomia? Culinária vanguardista, meus queridos...

... um casamento nos fundos do pub.
 
A arte de fazer nada durante deliciosas horas de royal parks
Green Park

... perder a noção da hora admirando a grandiosidade da London Eye (sem a menor necessidade, vontade ou remorso por escolher o dia lindo lá de baixo ao invés de 2hs de fila quilométrica por uma vista de cima!)
... curtir a energia colorida, artística e vibrante de Soutbank ...

... e a delicadeza poética de Bankside

... experimentar a intensidade em forma de arte do Tate Modern...

... e o melhor do sexo, drogas e rock n' roll explícito em fotografias, filmes e relatos da mostra Exposed
 Exposed: Voyeurismo, Surveillance & the camera - mostra Tate Modern
  
... e pra fechar um dia feliz, um pôr do sol às 9pm nas margens do Rio Tâmisa.

 
Uma manhã sozinha num tal lugar chamado Notting Hill. Comprinhas na feira de antiguidades, delícia gastronômica sentada na sarjeta de Portobello Road ... 

... e o desejo de uma vida mais slow

... um último pôr do sol londrino de tirar o fôlego: Hyde Park com Cyder, chips e 2 amigos queridos


... uma tarde no reduto fashion, cool, vintage, do bairro mais lado B de Londres: Camden Town. Melhores brechós de uma vida
Camden Lock Market, Camden Town


 
... e minha última pint londrina no pub The Hawley Arms Pub, no melhor estilo Amy Winehouse (Checa a cena ao fundo que very londoner! Frequentadora assídua, Amy escolhe o pub como palco de alguns de seus vários escândalos)
... e como ninguém é de ferro... Uma voltinha na caótica, nada slow e meca do consumo, Oxford Street. Alguns CDs de novas bandas britânicas na HMV, voltinha esgotante na gigante loja de departamento Selfridges e achados a preço de banana na H&M, Primark e River Island e Top Shop.

Fecho meus dias londrinos com nostalgia ao som de uma das mais belas músicas da história dos Beatles, interpretada por aqueles mesmos ingleses, indianos, paquistaneses, africanos, chineses, brasileiros que vivem no caos de suas vidas anônimas. A música é triste, o dia está cinza, mas sentem a energia dessas pessoas? Eu sinto... Thank you London for shiny happy days!